Tomás sentiu o calor através da sola da bota de couro. Não era uma impressão. Se ele
ajoelhasse e colocasse a palma da mão nas rachaduras do asfalto velho daquela estrada
abandonada, sentiria a rocha queimar.
Eles haviam cruzado a placa de sinalização que dizia “PERIGO” há duas horas. O grupo era
formado por quatro amigos, todos entusiastas do chamado Dark Tourism — a exploração de
lugares marcados por tragédias, isolamento ou abandono. E nenhum lugar no mundo parecia
mais magnético para eles do que aquela cidade fantasma.
O cenário parecia saído diretamente de um videogame de terror pós-apocalíptico. Casas vazias
com janelas quebradas, carros enferrujados devorados pela vegetação e, acima de tudo, uma
névoa branca, espessa e constante, que brotava diretamente das fendas do solo.
— Vamos acampar perto da antiga igreja — sugeriu Igor, o líder do grupo, ajustando a mochila
cargueira nas costas. — A vista de lá é a melhor para as fotos da manhã.
Eles montaram as barracas no início da noite. O silêncio da cidade morta era absoluto,
interrompido apenas pelo chiado sutil do vapor escapando da terra. No início, o clima era de
excitação. Eles abriram algumas cervejas, riram do isolamento e revisaram as fotos tiradas
durante o dia.
Mas a negação é uma força poderosa na mente humana. Quando queremos muito viver uma
aventura, ignoramos os pequenos sinais de que algo está profundamente errado.
Por volta das 23h, a atmosfera mudou.
Tomás começou a sentir uma dor de cabeça latejante, uma pressão incômoda atrás dos olhos.
Ele olhou para o lado e viu que Leo, o mais jovem do grupo, estava pálido e com uma leve
náusea. “Deve ser o cansaço da trilha”, pensaram todos. Ninguém queria ser o primeiro a
sugerir dar meia-volta.
Foi na madrugada que o verdadeiro terror se instalou. E ele não veio de fora.
Igor acordou Tomás com um empurrão violento. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas
dilatadas na penumbra da barraca. Ele tremia da cabeça aos pés, mas não era de frio. O chão
embaixo deles continuava quente.
— Eles estão vindo — Igor sussurrou, a voz esganiçada pelo pavor. — Vocês armaram para
mim. Eu ouvi vocês conversando lá fora. Vocês me trouxeram aqui para me deixar morrer.
Tomás franziu a testa, confuso e grogue de sono. — Do que você está falando, cara? Ninguém
saiu da barraca. Estávamos todos dormindo.
— Mentira! — Igor gritou, avançando na direção de Tomás. Ele agarrou uma faca de
acampamento que estava na mochila. O amigo de infância, o cara mais calmo e racional que
Tomás conhecia, havia se transformado em um animal encurralado, com os dentes
arreganhados e uma paranoia violenta brilhando no olhar.
Lá fora, a névoa branca havia engolido completamente as barracas. O ar cheirava a enxofre e
algo mais… algo doce, invisível e letal.
A grande maioria dos canais de mistério diria que Igor foi possuído pelas almas dos antigos
moradores ou que a cidade fantasma exalava uma maldição sobrenatural. Mas a verdade por
trás daquela loucura súbita é puramente científica, e muito mais aterrorizante.
O que estava acontecendo com o cérebro de Igor no porão daquela cidade que queima por
baixo?