O som de vidro estilhaçando.
O cheiro metálico de sangue misturado com gasolina. A chuva fina batendo no capô amassado do carro da sua mãe.
Clara tinha apenas onze anos na noite do acidente, mas as memórias eram nítidas como fotografias em alta resolução. Ela lembrava da estrada de terra escura. Lembrava do farol alto do outro carro vindo na contramão, forçando sua mãe a desviar violentamente e capotar na ribanceira.
Mas, acima de tudo, Clara lembrava do motorista.
Depois que o carro parou de rolar, ela ficou presa no banco de trás, de cabeça para baixo. Foi quando o outro veículo parou. A porta bateu. Botas pesadas afundaram na lama caminhando até a janela quebrada de Clara.
Um homem de jaqueta de couro olhou para dentro. Ele tinha uma cicatriz pálida perto do olho esquerdo e cheirava a cigarro barato. Ele não ajudou. Ele apenas olhou para o rosto aterrorizado de Clara, deu um sorriso de canto de boca e foi embora, deixando-as ali no escuro.
A mãe de Clara sobreviveu, mas ficou com sequelas para o resto da vida. O motorista nunca foi encontrado. A polícia arquivou o caso por falta de provas, tratando como um trágico acidente onde o culpado fugiu sem prestar socorro.
Durante os vinte anos seguintes, o rosto daquele homem assombrou os pesadelos de Clara.
Ela o via em multidões. Ela sentia o cheiro do cigarro dele em becos vazios. Ela passou anos em terapias intensivas, tentando lidar com o trauma daquela noite, desenterrando detalhes cada vez mais sombrios através de técnicas de regressão e visualização guiada. Sua psicóloga a ajudou a mapear cada feição do monstro.
Clara transformou sua dor em combustível. Tornou-se investigadora e, aos 31 anos, decidiu usar seu acesso para reabrir o próprio caso. Ela estava determinada a encontrar o homem da cicatriz.
Ela solicitou a caixa de evidências originais do arquivo morto da delegacia central. O envelope pardo estava coberto de poeira. O coração de Clara batia na garganta quando ela rompeu o lacre.
Lá dentro estavam as fotos da perícia. O laudo da estrada. O depoimento dos primeiros socorristas.
Ela espalhou os papéis na mesa. Começou a ler o relatório do perito criminal, linha por linha.
E então, o ar desapareceu dos pulmões de Clara.
Não havia marcas de frenagem de um segundo carro. Não havia tinta no capô. O laudo técnico era categórico e indiscutível.
Sua mãe não havia desviado de ninguém. Ela simplesmente havia dormido no volante.
Mas e os passos na lama? E o cheiro de cigarro? E a cicatriz? Clara tocou a própria têmpora, sentindo o mundo girar. Se não havia outro carro…
Quem era o homem que habitava a mente dela há duas décadas?
O que você faria se descobrisse que o seu trauma mais profundo, aquele que moldou toda a sua personalidade, é uma mentira contada pelo seu próprio cérebro?
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